O voto impresso no Brasil: limitações técnicas e práticas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.71381/6s5z0h22

Palavras-chave:

voto impresso, eleições, urna eletrônica, sistema de votação

Resumo

O debate sobre o voto impresso no Brasil se arrasta desde os primórdios da adoção das urnas eletrônicas, tendo sido utilizado como instrumento político em um passado mais recente. Na intenção de superar um debate passional e politizado sobre o tema, o presente trabalho propõe uma avaliação sobre a eficácia técnica e viabilidade prática do voto impresso - aspectos esses muitas vezes ignorados no debate público. Embora defensores do voto impresso apontem potenciais benefícios como a possibilidade de verificação individual pelo eleitor e a recontagem de cédulas impressas, o presente trabalho sustenta que o voto impresso introduz limitações graves ao sistema eletrônico de votação: (i) cria um paradoxo de confiabilidade na urna eletrônica para validar a confiabilidade do voto impresso, (ii) gera margem para discrepâncias entre registros físicos e eletrônicos que fragilizam a definitividade da apuração, (iii) incentiva a judicialização das eleições com pedidos de recontagem e (iv) ameaça o sigilo do voto. Dessa forma, por introduzir limitações mais graves que as eventuais vulnerabilidades que visa sanar, o presente trabalho conclui que a adoção do voto impresso não representa um aprimoramento em termos de auditoria do sistema eletrônico de votação.

Biografia do Autor

  • Larissa Fontenelle, ABRADEP

    Pesquisadora independente na área de Direito Eleitoral, membra da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP). Advogada com dupla qualificação (Brasil e Inglaterra & País de Gales). Mestre pela Universidade de Oxford, com pesquisa com foco no sistema eleitoral brasileiro. Especialização em Direito Eleitoral pela PUC-Minas Gerais. Bacharela em Direito pelo Centro Universitário de Brasília e em Sociologia pela Universidade de Brasília.

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Entrevista

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Publicado

2026-01-07